Produção e produtividade em paredes de concreto

Produção e produtividade em paredes de concreto

 

Carlos Chaves*

 

Construir é uma das atividades produtivas mais antigas da humanidade. Muito antes de Henry Ford, já nos preocupávamos com: movimentação de materiais, logística de abastecimento, número necessário de operários para cada tarefa e resultado final (= qualidade) do ambiente construído. Sempre buscamos sistemas mais rápidos e eficientes, mas sem abrir mão da segurança dos operários, da qualidade final do produto, e do conforto e bem estar que os usuários necessitam (e exigem).

 

Quando uma construtora considera a adoção do sistema de paredes de concreto moldadas no local, surge uma série de dúvidas. Do ponto de vista da produção as principais são:

  • Quantas casas ou, no caso de edifícios, quantas lajes eu consigo concretar por mês?
  • Quantos operários eu preciso?
  • Qual será o meu ciclo de concretagem? Todos os dias? A cada dois dias?

 

Perguntas simples, porém que necessitam de respostas um pouco mais elaboradas. Vamos lá:

 

Quais são os principais fatores que influenciam a produtividade de um operário na execução de paredes de concreto moldadas no local?

 

  • Projeto adequado ao sistema construtivo.
  • Equipe treinada e motivada: prêmio por produção.
  • Características do sistema de fôrmas: facilidade de montagem e desmontagem, número reduzido de peças, disponibilidade de ferramentas específicas.
  • Organização do trabalho – peças limpas e organizadas, local limpo e sem materiais alheios à atividade que está sendo executada, sequência de trabalho definida e conhecida pelos operários.
  • Dimensionamento da equipe levando em conta o espaço mínimo de trabalho necessário para cada operário.

 

Este último muitas vezes é esquecido, implicando em um número excessivo de operários em cima da laje, diminuindo a produtividade de cada um, e tornando o ciclo extremamente vulnerável a qualquer imprevisto. O resultado é conhecido: constantes concretagens “noite adentro”, com riscos à segurança dos operários e à qualidade final das paredes e lajes.

 

Então, qual é o número máximo de fôrmas a serem montadas por dia?

 

Obviamente, esse número varia de projeto a projeto, mas, como ponto de partida, sugiro considerar a montagem de no máximo 500 m² de fôrmas (área de contato) por dia e uma produtividade média de 20 m² de fôrmas por dia por operário.

 

 

Vamos simular dois exemplos com esses números:

 

Exemplo 1: Obra de 4 apartamentos por andar e uma área de laje de aproximadamente 200 m². Um jogo de fôrmas para 2 apartamentos e hall da escada corresponderá a aproximadamente 500 m² de fôrmas de paredes e lajes. Para concretarmos esses 2 apartamentos todos os dias necessitaremos de:

 

 

(*) excluindo-se as equipes de armação e instalações, que seguem na frente armando e posicionando caixas e eletrodutos no trecho seguinte.

 

 

Dessa forma, teremos concretagens diárias de 2 apartamentos, implicando em um ciclo de 2 dias por pavimento. Importante frisar que este ciclo em “vôo de cruzeiro” somente ocorrerá após um período de aprendizado.

 

Note que trabalhando em dois apartamentos, teremos 100 m² de laje de trabalho. Dividindo por 25 operários, teremos 4 m² de área de trabalho para cada um, o que, a nosso ver, é o mínimo para evitarmos que a equipe fique “batendo cabeça” e consequentemente reduzindo a sua produtividade.

 

 

Exemplo 2: Obra com 8 apartamentos de 60m² por andar. Neste caso, vamos simular duas situações:

 

1).   Uso de um jogo de fôrmas de “meia-laje”, ou seja, 4 apartamentos mais hall de escada, com aproximadamente 1.400 m²:

 

1.400 m² / 500 m² dia = 3 dias para cada 4 apartamentos ou 6 dias por laje.

1.400 m² / (20m²/dia/operário) / 3 dias = 24 operários.

 

 

2).   Uso de um jogo de fôrmas de “1/4 de laje”, ou seja, 2 apartamentos mais hall de escada, com aproximadamente 800 m²:

 

800 m² / 500 m² dia = 2 dias para cada 2 apartamentos ou 8 dias por laje.

800 m² / (20m²/dia/operário) / 2 dias = 20 operários.

 

 

Ao analisar o seu negócio, a construtora poderá decidir entre quantidade de recursos (fôrma e equipe) versus a velocidade de execução.

 

Evidentemente esses números são orientativos e já existem no Brasil empresas que conseguem produtividades maiores do que estas. Essas empresas, entre outras coisas, investiram no desenvolvimento de projetos específicos para o sistema, na aquisição de sistemas de fôrmas de qualidade e no treinamento da sua mão de obra direta e indireta (gestão de processos).

 

Infelizmente existem também obras que, no afã de produzir cada vez mais rápido, apresentam uma série de problemas: paredes desalinhadas, desaprumadas, com variações na espessura, com nichos de concretagem (bicheiras) etc. Nesses casos, uma maior velocidade de execução da estrutura não implica em um menor prazo total de obra, e o conserto dessas não conformidades acarreta invariavelmente em atrasos na entrega da obra.

 

Para finalizar, deixo algumas dicas para quem quer começar a utilizar este sistema:

  • Desenvolva os projetos pensando em como serão executados.
  • Utilize fôrmas desenvolvidas especificamente para este sistema.
  • Comece planejando com segurança, com ciclos de concretagens factíveis.
  • Treine e motive a sua equipe.
  • Acompanhe a sua obra, entenda o que complica e o que facilita, e registre as boas práticas.
  • Aplique esse conhecimento nas próximas obras e
  • Atinja produtividades cada vez maiores!

 

Afinal, recordes (ou índices) existem para serem quebrados!

 

Boas concretagens…

Carlos Chaves é arquiteto e sócio da Signo Engenharia, com experiência em coordenação de projetos, planejamento, logística e controle de obras, e na aplicação dos conceitos de engenharia de produção nas obras.

 

Arquiteto Carlos Chaves, sócio da Signo Engenharia