Boas práticas contra patologias

Fissuração em paredes de concreto

Por Arnoldo Wendler*

 

O sistema de paredes de concreto apresenta uma estrutura muito rígida, com alta restrição à variação volumétrica. É uma estrutura que gera altas tensões quando submetida a imposição de deformações, como a retração. A retração é um fenômeno intrínseco ao material concreto. Ela tem diferentes causas:

  • retração plástica inicial, por perda de água com o concreto ainda não endurecido.
  • retração química, pelo menor volume dos cristais formados na reação do cimento.
  • retração hidráulica (ou secagem) pela perda de água quando já endurecido.

 

Percebe-se que precisamos dar muita atenção a este fenômeno para evitar um estado mais grave de fissuração.

 

Existe uma fissuração intrínseca do concreto, com fissuras de abertura até 0,3 mm (NBR 6118 – item 13.4.2, tabela 13.4, CAA II), que não causa nenhum problema. Acima deste valor é necessária uma verificação. Muitas vezes, mesmo com valores maiores, mas fissuras estabilizadas, pode-se prever, simplesmente, um reparo de proteção da armadura.

 

Na prática, a retração acima do normal é causada por:

  • Concreto autoadensável mal dimensionado, com poucos finos e muita água. É extremamente importante um estudo do traço do concreto por profissional especializado, seja ele da concreteira, laboratório de ensaios ou consultor independente.

 

 

  • Falta de cura, causando uma perda de água inicial muito alta. Pela rapidez do processo construtivo temos muitas paredes sendo curadas simultaneamente, o que, em princípio, inviabiliza uma cura úmida bem-feita. O ideal é trabalhar com a cura química, observando-se o resíduo do produto nas paredes para não influenciar na aderência do revestimento.

 

 

Ainda temos mais duas causas mecânicas para o aparecimento de fissuras:

  • Desforma com muito impacto (uso deficiente do desmoldante ou utilização de ferramentas inadequadas para retirada das placas metálicas da forma), principalmente nos cantos de janela e linha de espaçadores (faquetas, gravatas ou cones).
  • Existência de vibrações no terreno nos primeiros dias, como, por exemplo, impactos nas paredes ou terraplanagem com rolo vibratório.

 

Os pontos preferenciais do aparecimento destas fissuras são:

  • Paredes muito longas sem junta de controle.
  • Cantos de portas e janelas.
  • Posição de eletrodutos (eletrodutos mal posicionados e com poucos espaçadoresentre tela/eletroduto ou tela/formas).

 

 

  • Juntas frias (horizontal entre pavimentos, vertical entre concretagens de dias consecutivos e inclinadas entre concretagens de caminhões sucessivos com intervalo após o início de pega).
  • Fissuras no primeiro pavimento devido à restrição de movimentação imposta pela fundação.
  • Fissuras no último pavimento devido a dilatação térmica da laje de cobertura.

 

 

 

O ponto fundamental para diminuir a fissuração é estudar o traço do concreto, com um consumo de finos maior e um fator a/c menor. Adicionalmente, deve-se cuidar dos processos de cura e utilizar fibras têxteis para aumentar a resistência à tração nas idades iniciais, quando ainda não temos aderência entre a ferragem e o concreto. Finalmente, podemos pensar na utilização de aditivos antirretração que praticamente zeram a deformação imposta de longo prazo.

 

As obras que utilizam concreto com traço bem estudado praticamente não apresentam fissuras sistêmicas.

 

 

* Arnoldo Wendler é engenheiro civil com pós-graduação em Engenharia de Estruturas, ambos pela Escola Politécnica da USP. Ex-professor na mesma escola das disciplinas Resistência dos materiais e Concreto armado. É diretor da Wendler Projetos, de Campinas, e ministrou mais de duas centenas de palestras, cursos e seminários.

Engenheiro Arnoldo Wendler