Construir com o sistema de paredes de concreto nunca foi, exclusivamente, uma decisão técnica. Trata-se de uma escolha estratégica, com forte impacto no negócio de construtoras e incorporadoras.
Esse foi o fio condutor do Seminário de Paredes de Concreto para Prédios Altos, realizado no dia 26 de agosto, no São Paulo Expo, dentro da programação “Congresso Construindo Conhecimento” da feira Concrete Show 2026.
O evento foi uma realização conjunta da ABESC (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem) e do Núcleo Parede de Concreto. O seminário tem se consolidado como o principal ponto de encontro anual de engenheiros, projetistas, construtoras e incorporadoras interessadas em levar o sistema construtivo de paredes de concreto para edifícios cada vez mais altos.
Com a escassez de terrenos bem localizados nas grandes cidades, o adensamento urbano se tornou praticamente mandatório. Assim, empreendimentos residenciais e corporativos de 30, 40 ou mais pavimentos deixaram de ser exceção.
O sistema de parede de concreto vem ganhando espaço frente às estruturas convencionais por reduzir o número de ciclos operacionais da obra, simplificar a interface entre disciplinas de projeto e entregar maior previsibilidade de prazo e de custo.
Ao longo do dia, cinco palestras técnicas e um bate-papo final com especialistas mostraram, por ângulos diferentes, como esse ganho de eficiência se traduz em resultado prático para o negócio de construtoras e incorporadoras.

Os trabalhos foram abertos pelo Eng. Álvaro Barbosa, coordenador técnico da ABESC, que contextualizou o momento do setor e o papel da entidade no fomento técnico ao sistema de paredes de concreto no Brasil.
Na sequência, coube ao Eng. Ary Fonseca Jr., sócio da Signo Engenharia e coordenador do Núcleo Parede de Concreto, apresentar os desafios atuais da parede de concreto em prédios altos.

O engenheiro acompanha de perto a evolução do sistema há algumas décadas, desde os empreendimentos de baixa altura até os atuais projetos de 30, 40 e até mais pavimentos. A palestra traçou um cenário do estágio atual do sistema: uma tecnologia madura para prédios de qualquer altura, que demanda avanços na formação de mão de obra especializada e na integração entre projetistas para extrair a máxima eficiência proporcionada pelo sistema.
Na sequência, o olhar de quem decidiu investir na tecnologia: o Arq. Thales Osório Souza, da Quattro Empreendimentos, levou ao palco a perspectiva de uma incorporadora que optou pelo sistema de paredes de concreto em seus empreendimentos.

Na palestra “Por que Escolhemos o Sistema Parede de Concreto”, Osório tratou dos critérios que pesam na decisão de uma construtora antes mesmo de a obra começar: velocidade de execução, redução de mão de obra especializada em um mercado que sofre com escassez de profissionais, previsibilidade de custo por metro quadrado e ganho de qualidade final do produto entregue ao cliente.

O Eng. Cláudio Corrêa, fundador e sócio-diretor da Ditec Engenharia e Consultoria, é um profissional com mais de 40 anos de atuação em instalações prediais. Sua palestra, “Interfaces das Instalações Elétricas e Hidrossanitárias com a Parede de Concreto”, partiu de um alerta simples e recorrente: projetos de instalações que não são pensados especificamente para o sistema construtivo geram retrabalho, desperdício e atraso.
Corrêa detalhou uma série de boas práticas: usar tomadas conjugadas com interruptor para eliminar caixas e trechos de tubulação, levantar tomadas baixas para a posição média sempre que possível, organizar as descidas de tomadas na bancada da cozinha e evitar caixas desalinhadas ou desnecessárias, além de compartilhar prumadas entre shafts sempre que o projeto permitir.
O engenheiro reforçou que a arquitetura precisa contribuir ativamente para a execução das instalações, mostrando, por exemplo, como áreas molhadas posicionadas nas extremidades da unidade facilitam a passagem das tubulações, enquanto áreas molhadas afastadas das extremidades trazem desafios adicionais para elétrica e hidráulica.
Um dos pontos altos da apresentação foi a defesa da industrialização do processo por meio de kits pré-montados. Segundo o engenheiro, eliminam a quebra de parede e a geração de entulho, reduzem em até 80% a mão de obra necessária no canteiro e ainda garantem testes de qualidade realizados na própria fábrica, com redução direta do prazo de obra. O mesmo raciocínio vale para os kits elétricos.

O Eng. Francisco Paulo Graziano é uma das maiores referências brasileiras em paredes de concreto. Intitulada “Paredes de concreto em prédios altos: a engenharia como caminho para a eficiência do seu negócio”, a palestra dele reconstituiu a trajetória do sistema desde as primeiras aplicações na década de 1970, passando pela retomada em 2007, a primeira versão da NBR 16055, em 2012, até a revisão de 2022.
Graziano foi direto ao afirmar que parede de concreto não pode ser encarada como alvenaria estrutural. “Os dois sistemas têm abordagens estruturais muito diferentes”, afirma o projetista. Defendeu também que o engenheiro estrutural precisa ter visão sistêmica, com máxima modularidade e padronização, para aproveitar todo o potencial da tecnologia.
Com dados de estudos próprios, o projetista mostrou que o custo por metro quadrado das paredes de concreto se mantém mais estável ao longo do aumento do número de lajes do que o da estrutura convencional e do que o da alvenaria estrutural, que cresce mais rapidamente a partir da faixa de 17 a 20 pavimentos.
O projetista mencionou também o EZ Parque da Cidade, empreendimento residencial que integra o complexo Parque da Cidade, em São Paulo-SP, que venceu duas categorias na premiação internacional CVU Awards 2026, promovida pelo Council on Vertical Urbanism (CVU).
Com projeto estrutural da Pasqua & Graziano Associados, o empreendimento da Eztec empregou o sistema de parede de concreto e foi reconhecido nas categorias: “Best Tall Building, by Height, 100–199 meters” (Melhor Edifício Alto, por Altura, 100–199 metros) e “Best Tall Building, by Region, Americas” (Melhor Edifício Alto, por Região, Américas).

Fechando o bloco de palestras técnicas, o Eng. Vitor Canto, da ACLF Empreendimentos, apresentou o case do Belém Boulevard, empreendimento em construção em Recife-PE. O empreendimento é formado por duas torres residenciais de 36 pavimentos, com 288 apartamentos por torre — oito unidades por andar, servidas por seis elevadores —, além de um edifício-garagem independente.
O case reforça um movimento de incorporadoras que optaram pelo sistema de paredes de concreto para viabilizar torres de grande altura. Canto detalhou a experiência da empresa no empreendimento, que tem despertado a atenção do meio técnico em todo o País.

Encerrando a programação, um bate-papo reuniu os especialistas do dia em uma conversa aberta com o público. Além dos palestrantes, destaque para a participação especial de Felipe Otoya (segundo da direita para a esquerda), engenheiro mecânico colombiano e fundador da Forsa, fabricante de sistemas de fôrmas de alumínio para paredes de concreto com atuação em mais de 17 países da América Latina, Europa e África.