Tecsic 2019

Ponto de encontro

Mesa de apresentações do dia 28/08. A partir da esquerda: Ary Fonseca Jr. (Núcleo Parede de Concreto); Cláudio Mitidieri (IPT); Constantino Bueno Frollini (Anicer); Carlos Alberto Tauil (Bloco Brasil)

Tecsic cria clima favorável para projetos de pesquisa em rede de interesse do mercado

 

No fim de agosto de 2019 (28 e 29), o IPT realizou em sua sede, em São Paulo, o 2º Workshop de Tecnologia de Processos e Sistemas Construtivos, evento previsto para 120 pessoas, mas que teve 130 inscritos. Voltado a empresários, professores e pesquisadores, o objetivo foi integrar o meio acadêmico e o setor produtivo, a fim de potencializar pesquisas que podem ser colocadas no mercado da construção.

Nesta entrevista exclusiva ao Núcleo Parede de Concreto, o pesquisador sênior do IPT Cláudio Mitidieri, que divide a coordenação do workshop com Luciana Oliveira, responsável pelo Laboratório de Componentes e Sistemas Construtivos do instituto, fala dessa integração, que busca uma produção de conhecimento mais alinhada com o dia a dia do mercado.

 

NPC – O IPT recebeu em agosto a segunda edição do Tecsic. Como surgiu essa proposta?

Claudio Mitidieri – A Antac (Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído) congrega pessoas de várias universidades e instituições de pesquisa e possui diversos grupos de interesse em temas específicos, como argamassa, projeto, tecnologia de informação. Havia o desejo de também formar um grupo de processos e sistemas construtivos, mas estava difícil mobilizar as pessoas para isso. Em 2016, o IPT apoiou a criação desse grupo e isso resultou no primeiro workshop sobre o tema em 2017, na Unicamp. Ali decidiu-se que o segundo workshop seria feito no IPT, já que o instituto tinha interesse em fazer um evento de integração com o setor produtivo. O IPT já tem tradição de integração, mas queríamos levar isso às universidades do grupo.

 

NPC – Como se deu esse encontro?

Claudio Mitidieri – Tivemos uma estrutura interessante, com apresentação de artigos técnicos originados em programas de pós-graduação e um bloco com a participação não de empresas, mas de associações ou núcleos representativos do setor produtivo. Conseguimos a participação da Anicer (cerâmica), BlocoBrasil (blocos de concreto) e  Núcleo Parede de Concreto (sistema parede de concreto), isso no primeiro dia; e no segundo dia dos sistemas leves: Associação do Drywall, Abcem (construção metálica), na área de light steel frame, e o Núcleo da estruturas leves de madeira (wood frame etc.). Além disso, tivemos duas palestras-âncora: uma do engenheiro Ércio Thomaz (Mestrado Profissional em Habitação do IPT), que adotou uma abordagem histórica e evolutiva dos sistemas construtivos no Brasil, e outra do engenheiro Jorge Batlouni (diretor da Tecnum Construtora), que fez mestrado no IPT e é vice-presidente do Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sinduscon-SP. A ideia era de que ele falasse sobre a sua expectativa em relação às tendências. Então, ele trouxe, sob a perspectiva do construtor, a busca por novas tecnologias e novas formas de construir. Na realidade, tentar industrializar ao máximo a construção.

 

NPC – Qual sua avaliação sobre esse momento de integração?

Claudio Mitidieri – Acho que o encontro foi muito produtivo e pode ser aprimorado. O mercado reclama de que há pesquisas que ficam na instituição e o setor produtivo, que precisa de desenvolvimento, não tem acesso a elas. Por isso, reservamos um dia do evento para discutir temas de interesse do mercado para projetos de pesquisa. Começamos a criar um ambiente mais favorável para saber o que o mercado quer. Houve um entrosamento interessante, uma percepção da indústria de que ela pode interferir nesse processo decisório sobre o que é necessário desenvolver. Tivemos a participação de construtores que puderam ver e balizar suas escolhas ouvindo e vendo a abordagem dos temas do evento. E vice-versa. Por exemplo, é importante que haja um mapeamento das condições de agressividade ambiental, especialmente de níveis de cloreto na atmosfera, para definir a faixa de atmosfera marinha, de fundamental importância para o projeto e a definição dos sistemas construtivos. Tem iniciativas nesse sentido, como a de Fortaleza, mas como definir isso para o país todo?

 

NPC – Houve alguma deliberação em relação a pesquisas e parcerias?

Claudio Mitidieri – Temos algumas ideias para projetos de pesquisa em rede. Elas serão discutidas e apresentadas no próximo Tecsic (2021), previsto para Fortaleza (CE). Isso é importante porque muitas vezes são lançados projetos de pesquisa em rede sem que sejam pensados antecipadamente ou discutidos com o setor produtivo.

 

NPC – Você se referiu à expectativa do construtor de industrializar ao máximo a construção. O sistema parede de concreto é estruturado justamente no processo de planejamento e montagem. Qual sua opinião sobre essa tecnologia? 

Claudio Mitidieri – Podemos dividir esse tema em duas etapas. Para o evento, procuramos trazer o que fosse mais representativo na área de sistemas construtivos, e o sistema parede de concreto é dos sistemas representativos do mercado brasileiro. Outra questão é o desenvolvimento do sistema no Brasil. Tivemos um primeiro momento no final da década de 1970 e início da de 1980, em que até havia formas leves, de alumínio, mas a tecnologia do concreto não era bem desenvolvida, quase não tínhamos uso de aditivos e as paredes tinham espessura muito fina. Então, no início, acabava-se empregando um concreto com slump muito elevado, um concreto fluído, mas com relação água-cimento mais elevada, e isso acabou gerando problemas de fissuras. Depois vivemos outro momento, que foi de ascensão da parede de concreto, quando se formaram grupos de discussão, com apoio de construtoras, da ABCP, do IBTS, da Abesc, para conhecer melhor o sistema. Esse desenvolvimento culminou, na época, na discussão que estávamos tendo no SINAT (Sistema Nacional de Avaliação Técnica de Produtos Inovadores, do PBQP-H) com relação à diretriz para novos produtos e sistemas, uma vez que tínhamos feito um trabalho interessante com uma empresa construtora que usava parede de concreto, mesmo antes da formação desse grupo. Assim, a diretriz número 1 do SINAT foi para o sistema parede de concreto. Toda essa sinergia do setor e esse conjunto de informações serviram de base para a norma técnica brasileira para parede de concreto.

 

NPC – A partir daí o sistema teve uma expansão. Como você vê isso?

Claudio Mitidieri – Dentro do que acompanhamos de obras financiadas, principalmente pela Caixa, o sistema parede de concreto foi o que mais ocupou espaço nesse processo de abertura. Hoje, o que a gente imagina? Que o construtor, mais do que industrialização, precisa de soluções. Então, vamos tratar de níveis de industrialização. A diferença nos níveis de industrialização está na mão de obra para montagem. Posso ter essa mão de obra numa indústria ou na obra, com sistemas como parede de concreto. É um processo industrializado? Ele é extremamente racionalizado usando esse conceito. Racionaliza-se o sistema na própria obra, consegue-se industrializar toda a montagem na obra, empregando vários outros produtos complementares, como kits pré-fabricados. Consegue-se industrializar o sistema de formas, um processo rápido de montagem, dar um ritmo interessante na obra e fazer rapidamente o prédio.

 

NPC – E sem ter níveis diferentes de qualidade de execução.

Claudio Mitidieri – Porque estou industrializando o processo. O sistema de formas induz o processo. Levo os materiais e racionalizo o sistema de produção em obra. A dificuldade de algumas empresas é compatibilizar a produção dos demais itens. Tem de produzir toda a parte de instalações, revestimentos, para uma obra que é bastante rápida. Se a gente faz um prédio com quatro apartamentos por andar em dois dias, em 30 dias, sem os fins de semana, a gente consegue fazer 12 pavimentos.

 

NPC – Mas esses itens citados também são industrializados.

Claudio Mitidieri – Sim. Por isso tem que haver uma preocupação conjunta, desde o projeto. A ideia é padronizar e construir em larga escala, industrializando tudo junto. Esse conceito pode parecer banal, mas envolve tecnologia de ponta a ponta. Não posso fazer a estrutura em trinta dias e depois levar dois anos para acabar. Até a forma de controlar deve ser adequada. Eu faço o controle do concreto em 28 dias? Tudo bem, eu vou precisar da informação. Só que, quando chegar aos 28 dias eu terei dez andares construídos. Até isso tinha que mudar e foi mudado. Outra coisa: empresas tiveram sucesso com parede de concreto porque voltaram a cultura da empresa para isso, qualificaram sua mão de obra para parede de concreto, mudaram suas equipes pensando na lógica do sistema.

 

NPC – Falando um pouco sobre normalização, a NBR 16055 (Parede de concreto moldada no local para a construção de edificações — Requisitos e procedimentos) é de 2012. Já são sete anos…

Claudio Mitidieri – Eu não tenho acompanhado pessoalmente a revisão. Fizemos algumas discussões aqui no IPT sobre isso e consideramos que a própria norma poderia conter alguns indicadores de desempenho. Essa é a tendência. Se conseguirmos padronizar a parede de concreto, com tal material, característica, resistência, espessura, conseguiremos definir pré indicadores de desempenho.

 

NPC – Você acredita que o mercado vai adotar definitivamente o sistema parede de concreto?

Claudio Mitidieri – Acho que determinados setores já adotaram. Obviamente, é um sistema que precisa de equipamentos, desde forma até elevação, mas há várias empresas que constroem em larga escala que já adotaram o sistema.

 


Comissão Organizadora do Tecsic 2019: Guilherme Parsekian (UFSCar); Regina Ruschel (UNICAMP); Patrícia Fontanini (UNICAMP); Fabiana Oliveira (FAU-USP); Cláudio Mitidieri (IPT) e Luciana Oliveira (IPT)

 

Cláudio Mitidieri, pesquisador sênior do IPT e um dos coordenadores do 2º Workshop de Tecnologia de Processos e Sistemas Construtivos
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