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Interferências de sistemas com as paredes de concreto

É cada vez mais importante a integração dos diversos subsistemas na elaboração dos projetos executivos e na execução do sistema parede de concreto. O resultado final depende da boa interação entre os diversos sistemas e os fornecedores de materiais e serviços têm especificado premissas e recomendações técnicas para isso. Fôrmas e cimbramento, instalações elétricas e hidrossanitárias, caixilhos, portas de madeira e armações das telas soldadas são os principais subsistemas a serem integrados com o sistema principal parede de concreto. Para falar deste assunto, convidamos o engenheiro Arnoldo Wendler – projetista de estrutura –  profissional de destaque no setor da construção e que tem acompanhado de perto todo o processo de crescimento e consolidação deste sistema.

 

Como projetista estrutural e coordenador da Norma de Projeto e Execução das Paredes de Concreto moldadas no local (NBR 16.055), você poderia comentar as características principais do cálculo estrutural face às interferências dos outros subsistemas?

Arnoldo Wendler – Neste sistema todas as paredes compõem a estrutura da edificação. Portanto, qualquer elemento embutido ou abertura existente interfere no funcionamento estrutural. Percebe-se a importância, para o projeto estrutural, que tem o conhecimento de todo e qualquer elemento presente nas paredes. Isso implica na execução conjunta dos vários projetos com uma constante compatibilização entre os mesmos. Percebe-se a relevância disso quando a norma NBR 16055:2012 diz, nos itens 5.3 (parte de projeto) e 18.1 (parte de execução): “Os projetos de fôrma, escoramentos, detalhes embutidos ou vazados e os projetos de instalações devem ser validados pelo projetista de estrutura.”

 

Que subsistemas merecem mais atenção quando da compatibilização com o projeto estrutural?

Wendler – Certamente são as instalações elétricas, hidráulicas e sistemas. Muitas vezes temos que considerar o embutimento ou não das mesmas. Esta decisão é regida pela norma NBR 16055, que já no seu item 5.1 diz: “A decisão quanto ao embutimento ou não das instalações nas paredes deve ser do projetista estrutural, de forma a não comprometer o sistema construtivo. Além disso, tal decisão deve considerar as exigências de manutenibilidade das instalações hidrossanitárias e elétricas ao longo da vida útil da edificação.”

 

Quais são os principais cuidados de cada subsistema na fase de projeto – conceitos e premissas?

Wendler – O princípio básico é minimizar as interferências na seção horizontal das paredes, ou seja, utilizar sempre as instalações na vertical. A principal interferência acontece com as instalações elétricas: pela sua quantidade é de extrema importância a orientação dos projetistas de instalações quanto ao posicionamento correto das instalações, sempre na vertical. Ainda hoje, temos raras opções (tanto de produtos com custo adequado quanto de aceite pelo consumidor) de utilização de instalações elétricas aparentes.

 

No processo de cálculo vamos considerar como paredes estruturais apenas os trechos onde não existirem instalações horizontais ou inclinadas. No caso de instalações elétricas na vertical de no máximo 25 mm, podemos imaginar que a perda de seção horizontal é muito pequena e, portanto, não afeta a resistência total da parede. Mesmo assim, não devemos utilizar mais de um eletroduto no mesmo ponto, ou seja, espaçá-los de no mínimo duas vezes a espessura da parede. Caso haja necessidade de eletrodutos de maior diâmetro, é necessário examinar a interferência, colocando tela dupla no local (fig. 1). O caso das instalações hidráulicas já é diferente. Não podemos colocá-las simplesmente dentro da parede, pois isto não garantiria a sua manutenibilidade, prevista na Norma de Desempenho NBR 15575. Para realizar qualquer reparo seria preciso quebrar a parede, que é a estrutura da edificação. Se precisarmos colocar as instalações dentro da espessura da parede, devemos prever um espaço livre, como uma abertura ou uma janela. O projetista de estruturas deverá reforçar as paredes nesta posição. Esta abertura (fig. 2) poderá ser total (em toda a altura da parede) ou parcial. No primeiro caso é obrigatória a consideração de duas paredes independentes. No segundo caso, o projetista irá verificar se existe a possibilidade da consideração de uma única parede sem perda de rigidez do sistema. Observe que uma consideração deste tipo afeta todo o cálculo da estrutura da edificação e, portanto, não poderá ser determinada após a execução do edifício. Mais uma vez se vê a importância da compatibilização dos projetos. Percebe-se como as instalações embutidas interferem na estrutura das paredes. As instalações sanitárias de maior diâmetro passam sempre por fora da parede em shafts planejados. Existe uma forte tendência de se utilizar estes mesmos shafts para as principais prumadas hidráulicas. Outra possibilidade é colocar as instalações fora da parede com acabamento de carenagem de fibra. Estas instalações podem ser de material rígido convencional ou flexíveis (tecnologia PEX). No caso de edifícios muito altos, com uma quantidade muito grande de eletrodutos, tanto de elétrica como de sistemas, estes também precisam ficar fora da parede em shafts específicos ou carenagens de piso a piso.

 

Durante a execução das paredes, quais os cuidados com estes mesmos subsistemas?

Wendler – Tão importante quanto os projetos compatibilizados é a boa execução das paredes. Os principais cuidados nas instalações elétricas se referem ao posicionamento correto e boa vedação do sistema. Temos que lembrar que esses materiais vão estar colocados na fôrma quando da concretagem. Sofrerão portanto com a pressão do concreto fresco e eventual adensamento por vibração. É necessário a utilização de caixinhas elétricas vedadas (de alumínio ou plástico), especiais e colocação de eletrodutos resistentes e com conexões próprias para evitar a entrada de nata de cimento nos mesmos. O posicionamento será dado com a colocação de espaçadores em quantidade apropriada (2 unidades por metro de eletroduto). Na execução devemos lembrar também que, em virtude da velocidade da obra, o planejamento do escoramento residual permanente é de fundamental importância para as deformações do sistema. O projetista de estruturas deve atuar em conjunto com a construtora para estabelecer o esquema de escoramento e as idades de retirada do mesmo.

 

A NBR 16.055 contempla recomendações e restrições para alguns dos subsistemas?

Wendler – A norma dá algumas orientações (item 13.3): “Não se admitem tubulações horizontais, a não ser trechos de até um terço do comprimento da parede, não ultrapassando 1 m, desde que este trecho seja considerado não estrutural. Em nenhuma hipótese são permitidas tubulações, verticais ou horizontais, nos encontros de paredes.”

 

A cadeia de fornecedores de materiais tem contribuído para oferta de soluções que possibilitem a melhoria de desempenho do sistema?

Wendler – A cadeia de fornecedores já está preparada para o fornecimento de todos os produtos específicos para o sistema. Eles foram desenvolvidos juntamente com projetistas e construtoras, resolvendo ao longo do tempo os detalhes necessários. Várias empresas vêm participando há anos junto com os grupos de estudo no desenvolvimento do sistema, inclusive na redação da Norma NBR 16055.

 

Cite alguns exemplos e as melhorias que elas proporcionam.

Wendler – Acessórios para instalações elétricas de paredes e lajes, caixinha elétrica vedada e com espaçador para posicionamento, espaçador plástico para posicionamento de eletrodutos, quadros de distribuição e de passagem, tela específica para proteção na posição de eletrodutos de maior diâmetro (fig. 3).

 

O que ainda falta para melhorar a interação dos sistemas?

Wendler – Sempre há muita coisa a melhorar. De momento recomendamos uma atenção muito grande nas fases de planejamento e projeto, que devem ser compatibilizados também com a executibilidade da obra. No desenvolvimento futuro há espaço para novos materiais e novas tecnologias desenvolvidas especificamente para o sistema.

 

Quais as responsabilidades dos projetistas de estrutura na compatibilização dos projetos e na verificação da execução?

Wendler – Como o sistema é uma única grande estrutura a responsabilidade do projetista de estruturas é total. Ele deve aprovar todos os elementos ou vazados que apareçam nas paredes e compatibilizá-los. Além disso deve observar as restrições da Norma de Paredes, NBR 16055, assim como da norma de concreto armado, NBR 6118, e também da norma de Desempenho, NBR 15575. Por exemplo, a parede de concreto com 10 cm de espessura atende a todos os requisitos da norma de desempenho, inclusive desempenho acústico, desde que não tenha aberturas. Devemos evitar a colocação de quadros de distribuição em paredes de divisa e principalmente a colocação de caixinhas de elétrica fundo a fundo. Isso cria um “túnel” de passagem de som de um ambiente para outro.

 

O que você recomendaria a uma empresa que fosse utilizar o sistema pela primeira vez?

Wendler – Primeiramente, informar-se ao máximo sobre o sistema. Temos muitos textos produzidos pelos grupos de estudo que podem ser encontrados nos sites das instituições patrocinadoras: ABCP, ABESC, IBTS. Depois, cercar-se de consultores e projetistas com experiência no sistema. O planejamento, projeto e execução têm muitos detalhes específicos deste sistema, principalmente em face da velocidade da obra.

 

Os critérios e premissas valem para todas as tipologias de produto?

Wendler – Sim, mas são cada vez mais importantes conforme aumenta o nível de tensões nas paredes, quer seja pela altura da edificação ou pela utilização de poucas paredes estruturais (possibilidade de diferentes layouts).

 

Como você avalia a iniciativa de criação do Núcleo Parede de Concreto?

Wendler – É de fundamental importância para a transferência do conhecimento que existe sobre o sistema. Como se trata de um sistema que agora está em franca expansão, existem muitas construtoras que necessitam das informações sobre ele para os processos de decisão. Neste ponto, o Núcleo Parede de Concreto contribui muito para o desenvolvimento do sistema da maneira correta.

 

 

Arnoldo Wendler é engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1977), ex-professor de Resistência dos Materiais e Concreto Armado da EPUSP, diretor da Wendler Projetos, com mais de 1300 projetos, coordenador de alvenaria estrutural de vários polos da Comunidade da Construção e coordenador da NBR16055 – Paredes de Concreto.

 

 

 

Arnoldo Wendler, diretor da Wendler Projetos
Fig. 1
Fig. 2
Fig. 3
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