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A cura do concreto e sua importância

O insumo concreto é uma das mais importantes variáveis do sistema parede de concreto. Porém, ainda observamos em alguns empreendimentos a não execução do processo de cura após a realização da concretagem. Afinal de contas, qual a importância deste procedimento? Precisamos executar ou não a cura do concreto? O engenheiro Rubens Curti, profissional com muita experiência no setor da construção, e que tem acompanhado de perto a história do sistema parede de concreto nos últimos anos, fala um pouco sobre este assunto.

 

O que vem a ser a cura do concreto?

Rubens Curti – O concreto, para adquirir as propriedades para as quais foi especificado, precisa ter boa dosagem, boa aplicação e excelente cura. A cura é um conjunto de medidas tomadas para evitar a evaporação da água de amassamento utilizada na dosagem do concreto aplicado. O cimento necessita da água para promover a sua hidratação. Uma dosagem de concreto é composta por cimento, água, agregado miúdos e graúdos e eventualmente aditivo. A única reação química que se processa com esses materiais é a reação do cimento com a água, portanto tem que ter água suficiente para que a reação se processe.

 

Qual a importância de se realizar este procedimento?

Curti – Se não houver uma perfeita hidratação do cimento, vai ocorrer perda de resistência, pois parte do cimento vai ficar anidro. Quando não ocorre a perfeita hidratação do cimento, não vai ocorrer a formação dos C- S-H (Silicatos de Cálcio Hidratados), que é a principal fase proveniente da hidratação do cimento Portland e tem grande influência na maioria das propriedades físicas e mecânicas dos materiais cimentícios.

 

Existe uma norma específica para o assunto?

Curti – A ABNT NBR 14931 – “Execução de Estruturas de Concreto – Procedimento” estabelece como deve ser feita a cura do concreto no item 10.1. Também a NBR 16.055 – “Parede de concreto moldada no local” faz referência ao procedimento de cura – item 20.

 

Quando se faz necessária a cura?

Curti – Sempre que trabalharmos com material cimentício.

 

No sistema parede de concreto, temos concretagem quase todos os dias. Talvez por isto as empresas deixem passar em branco o processo de cura. Isso é normal?

Curti – Não deveria ser, pois temos alternativas de executar a cura (manter a água no interior da massa de concreto), como, por exemplo, a cura química, que é usada em grande escala nas obras onde há uma superfície muito grande exposta (pavimentos de concreto, pistas e pátios de aeroportos, paredes de concreto etc.). É uma operação que deve ser executada após o acabamento do concreto, quando exposto, ou após a retirada das fôrmas, no caso de paredes de concreto, muros, pilar parede.

 

Que processo de cura você recomendaria para o sistema parede de concreto (monolítico)?

Curti – No caso das paredes de concreto a cura química seria a mais recomendada. Ao realizar o processo de cura química, a empresa deve deixar a película aplicada sobre o concreto durante sete dias, no mínimo. Um ponto importante a ser avaliado: os agentes de cura são à base de parafinas, ceras ou acrílicos que podem dificultar a aderência de argamassas de revestimentos. Neste caso, antes de revestir as paredes, o agente de cura deve ser removido. Uma limpeza superficial da área de contato com escova de aço é suficiente.

 

 

Existe alguma consequência para a estrutura de concreto executada sem cura, em relação a outra com cura?

Curti – Sim, além da perda de resistência do concreto também devem ocorrer patologias como, por exemplo, fissuras de retração. Essa patologia ocorre quando a velocidade de evaporação é maior que a velocidade de exsudação, que é intrínseca a todos os concretos.

 

O que fazer para que as construtoras se sensibilizem a realizar este procedimento?

Curti É uma “missão” muito difícil convencer uma construtora a fazer cura em concreto, independente se a peça de concreto é vertical ou horizontal. Um jeito de tentar convencer as construtoras é divulgar os malefícios que a falta de cura pode provocar no concreto.

 

Algumas dicas sobre o tema?

Curti – Há várias alternativas de cura para manter a água no interior da massa do concreto, a fim de que todas as reações do cimento com a água se processem:

  • Umedecer a superfície do concreto através de aspersão manual de água; >> Desvantagem: a superfície do concreto tem que ser molhada constantemente por um operário.
  • Manter úmida a superfície do concreto construindo-se pequenas barreiras nas bordas da superfície (horizontal) para que ocorra o represamento de uma lamina de água;
  • Manter úmida a superfície do concreto com auxílio de sacos de aniagem umedecidos, mantas de bidim umedecidas, camada de areia úmida, camada de serragem úmida, sacos de cimentos umedecidos etc.
  •  Utilizar agentes de cura que, aplicados nas superfícies do concreto, evitam a perda de água; este processo é mais aconselhável em grandes superfícies, como pavimentos de concretos, pistas e pátios de aeroportos etc., e em superfícies verticais, que é o caso das paredes de concreto.
  • No caso das superfícies verticais, também se pode fazer a cura com aspersão de água através de “chuveirinhos”.
  • A utilização de mantas de bidim umedecidas para envolver as peças verticais é uma boa alternativa.

 

Como você avalia a iniciativa de criação do Núcleo Parede de Concreto?

Curti – Mais uma ótima iniciativa para que as nossas obras sejam bem executadas, principalmente em se tratando de paredes de concreto, que é uma técnica de execução relativamente nova no país.

 

Rubens Curti é engenheiro civil, formado pela Faculdade de Engenharia da Fundação Armando Álvares Penteado (1976). Trabalhou como gerente de Tecnologia durante 10 anos na Concrelix e por 18 anos com gerente técnico do Laboratório de concreto e argamassa da empresa Falcão Bauer. Curti é atualmente coordenador do laboratório de concreto e argamassa da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), área em que possui diversos cursos de aperfeiçoamento.

 

Engenheiro Rubens Curti, coordenador do laboratório de concreto e argamassa da ABCP
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